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sábado, 26 de novembro de 2011
Um breve relato sobre Mequinho
Henrique Costa Mecking
Eu sempre admirei muito um brasileiro que alem de se tornar o maior jogador de xadrez do Brasil,lutou muito pela vida e deu a volta por cima em uma doença que para muitos não tinha cura.
Uma forma de homenagear este grande enxadrista,que com certeza vai voltar a ser um dos primeiros do mundo, como aconteceu na década de 70,copio abaixo um texto encontrado no blog Vida em Miniatura,publicado em dezembro de 2010.
Na década de 1970, três esportistas brasileiros tinham status de personalidade reconhecida e admirada no mundo inteiro. Eram eles: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, Emerson Fittipaldi, primeiro brasileiro campeão mundial de Fórmula-1, e Henrique Costa Mecking, o gênio do xadrez mais conhecido como Mequinho.
Aos 7 anos, em simultânea em Pelotas/RS Foto: Arquivo Pessoal
Nascido em 23 de janeiro de 1952, em Santa Cruz do Sul (RS), Mequinho aprendeu a mover as peças com sua mãe, Maria José Costa Mecking, quando tinha apenas cinco anos, e tornou-se o mais jovem Mestre Internacional da história, aos 15 anos - evidentemente, hoje este recorde já foi superado. O título de GM veio aos 20 anos, sendo o primeiro brasileiro a se tornar Grande Mestre de Xadrez.
A ascensão de Mecking foi tão extraordinária e inédita para o xadrez brasileiro que o presidente Emílio Médici o apoiou intensamente, a partir de 1971, desejando associar sua imagem de estrategista de sucesso nos tabuleiros à eficiência do governo da época, que ainda estava sob o regime militar. Seu desempenho no esporte não deixava para menos: alcançou o 3º lugar no ranking mundial, em 1977, com 2.635 pontos-ELO (atrás do GM Anatoly Karpov e do GM Viktor Korchnoi, o campeão e o vice-campeão mundial da época, respectivamente), e colecionou títulos e vitórias surpreendentes para um sul-americano que enfrentava praticamente sozinho os sólidos e unidos jogadores da extinta União Soviética e demais países da cortina de ferro.
Diziam que ele seria o novo Fischer, um jovem prodígio capaz de afrontar a hegemonia russa. Venceu dois Torneios Interzonais, que classificava para o Torneio de Candidatos, em Petrópolis-1973 (RJ) e Manila-1976 (Filipinas), à frente de nomes já consagrados como Boris Spassky, Vassily Smyslov, Paul Keres, Efim Geller, Lajos Portisch, Lev Polugaevsky e David Bronstein. Talvez por isso, os russos sempre o criticaram, como uma forma de afetá-lo psicologicamente. Antes de seu match em Augusta (1974), contra Viktor Korchnoi – que, naquela época, ainda pertencia à URSS -, alguns jogadores soviéticos deram entrevistas criticando bastante seu jogo, como Petrosian e Tahl.
O ex-campeão mundial Tigran Petrosian foi, provavelmente, um dos seus maiores opositores. Declarava publicamente que o jogo de Mecking era “muito animado” e que ele desconhecia o conceito de casas fracas. É verdade que, quando Mecking perdeu para Petrosian, ainda era apenas MI e, mesmo assim, havia recusado empate em uma dessas derrotas. “Um Grande Mestre naquele torneio chegou para mim e disse: ‘como você ousa recusar empate contra o ex-campeão mundial?’ É por isso que ele ganha muito: porque seus adversários querem derrotá-lo”, relata.
Botvinnik (pretas) x Mecking, Hastings, 1966
De fato, Mecking custou a entender isso, até que, anos depois, enfrentou Petrosian novamente e empatou. Sua história corrobora uma conhecida frase sobre seu opositor, que jogava de forma posicional como poucos outros e raramente era derrotado, herdando o injusto apelido de 'rei dos empates': “Dizem que minhas partidas deviam ser mais interessantes. Eu poderia ser mais interessante… e também perder”, defendia-se Petrosian.
Com exceção de Petrosian, o jogo de Mecking preocupava bastante aos demais soviéticos. Ele perdia pouquíssimas vezes e vencia de forma implacável, calculando de forma exímia e não dando chances aos oponentes. Em seu currículo, trazia vitórias contra os ex-campeões mundiais Mikhail Tahl e Vassily Smyslov (duas vezes), e empates com Bobby Fischer (quando ainda era apenas MI!), Anatoly Karpov e Mikhail Botvinnik, além de já ter derrotado Viktor Korchnoi (aos 15 anos, também como MI), e os famosos argentinos Oscar Panno e Miguel Nadjorf.
E, então, assim como Fischer, de repente ele desapareceu, sucumbindo a uma doença misteriosa chamada miastenia gravis – que compromete o sistema nervoso e os músculos. Parecia o fim, sua doença era incurável e ele se retirou dos tabuleiros para lutar pela vida. Mesmo desenganado pelos médicos, ressurgiu atribuindo sua cura à fé, o que o levou a converter-se à religião Católica. Nos 12 anos seguintes, deixou o jogo de xadrez de lado, formou-se em Teologia e Filosofia Católica e praticou sua fé fervorosamente.
Quando todos pensaram que sua carreira de enxadrista já havia sido extirpada de sua vida, eis que, em uma jogada surpreendente, anunciou seu retorno. Disputou matches contra os mais fortes brasileiros da atualidade, como o GM Giovanni Vescovi e o GM Alexandre Fier, e jogou diversos outros torneios. Teve uma volta difícil, como era de se esperar de qualquer esportista após mais de 10 anos de inatividade, mas, vez ou outra, demonstra resquícios daquele jogador que foi em seu auge.
Invicto em simultâneas há 30 anos Foto: Francisco Dandao/AE
Depois de sua volta, em 1991, já representou o Brasil em duas Olimpíadas (2002 e 2004), venceu o 2º Festival de Lodi, na Itália (2006), foi campeão brasileiro de blitz pela internet (2008) e disputou o popular Torneio Corus, na Holanda (2009), além de outras competições internacionais na Romênia e na Argentina. Apesar disso, dificilmente disputa os mais fortes torneios que poderia, como a Olimpíada de Xadrez e o Campeonato Brasileiro (do qual detém apenas 2 títulos, conquistados nas duas únicas vezes em que o disputou; o recordista brasileiro, por exemplo, possui 7 títulos).
Hoje, aos 58 anos, com uma convicção obsessiva no que diz e enfrentando a descrença da maioria, Mecking afirma que voltará ao topo. Aposta que seu retorno à elite máxima do xadrez mundial será "um presente de Deus" e se divide entre orações e estudos de xadrez, para atingir o objetivo máximo. Também realiza palestras e simultâneas, das quais ele se orgulha de estar invicto há 30 anos
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